quarta-feira, 21 de março de 2007

Coração Violão

Quando fiz quinze anos, ganhei um violão. É bem verdade que eu já o queria desde muito antes, mas tinha uma leve impressão de que se formava um complô à minha volta alegando um certo "fogo de palha" de minha parte. Algo que eu ganharia e que se tornaria obsoleto e esquecido em algum canto do quarto como tantas outras coisas que eu muito quis e depois não dei valor. Sendo assim, mesmo um pouco contrariado, mas no fundo até acreditando na possibilidade de eu me interessar efetivamente pelo instrumento, meu pai presenteou-me num belo dia com uma caixa que, embora disesse ele que fosse surpresa, sua forma em curvas não negava: era um violão! Lógico que não era dos melhores. Um violão bem chulé. Mas tocava e isso era o que estava importando naquele momento. Dizia meu pai que estava afinadíssimo e que eu tomasse cuidado para não desafinar. E eu, completamente leiga, nem sabia o porquê de um violão precisar ser afinado: para mim bastava que ele tivesse cordas e produzisse sons. Pois bem: os dias foram passando e eu tentando arranhar alguma coisa naquele instrumento que foi perdendo sua graça, pois não saía o mesmo som harmonioso das pessoas que tocavam violão e então, como previam todos, o destino foi aposentá-lo num canto qualquer do quarto. Porém, acredito piamente que nada chega na nossa vida por acaso e um tempo mais tarde, meio que por um mix de curiosidade e vontade de querer tocar, comprei uma dessas revistinhas de banca de jornal e comecei a fazer o que ali pedia. Complicado, para quem nada entendia. Pior ainda criar ouvidos para tentar afinar até conseguir um som no mínimo não ofensivo aos ouvidos. Mas saiu. Saiu a minha primeira música. Nem me recordo se toquei-a bem ou mal, com certeza muito pior do que hoje, mas "Amélia", de Ataulfo Alves (controlem-se, leitores), foi a primeira música que aprendi, ainda que sem muita força e habilidade nos dedos para tantos acordes. E a cada dia que passava, eu buscava outras novas músicas e às vezes detestava encontrar uma que eu adorava recheada de pestanas (na verdade até hoje tenho vontade de dar com o violão na cabeça de quem as criou). Enfim, o tempo passou e agora, sete anos depois, posso dizer que eu toco. Não sou uma assumidade e também nunca fiz aulas, mas garanto que posso me divertir por horas sozinha com meu violão. E já fiz muita gente cantar em viagens. E ainda orgulhei meu pai que disse: "E não é que ela toca legal mesmo?".Meu violão é o mesmo de sete anos atrás e não é dos melhores. Está até meio torto, a madeira ja descolou e foi colada e ainda possui duas cicatrizes: dois talhos em seu corpo, adquiridos por alguns tombos. Um dia, quando por ventura eu tiver outro, guarda-lo-ei com carinho, como uma lembrança de uma época que eu fui incrivelmente feliz. E, como dizem por aí, quem sabe tocar um instrumento, nunca estará sozinho: tem um amigo para a vida inteira.

"Você sabe de onde eu venho ?
É de uma Pátria que eu tenho
No bôjo do meu violão;
Que de viver em meu peito
Foi até tomando jeito
De um enorme coração."
Canção do Expedicionário

5 comentários:

Alf. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alf. disse...

hum... post com gostinho de passado gostoso e lembranças memoráveis que acompanha-nos a cada situação semelhante...

ai ai... Doces lembranças...

Mariliza Silva disse...

Que linda lembrança e admiro que sabe tocar algum instrumento. Realmente um tocador nunca estará sozinho e sempre estará expressando seus sentimentos!

Querida estou sumidinha de todos os cantos, mas estou fazendo o possível para reverter esta situação!

Obrigada pelo carinho
Beijos
Mariliza

dea disse...

adoro ler um post e me identificar com ele! esse seu passado é meu presente! ODEIO quando descubro que as músicas que mais gosto são cheias de pestanas e odeio mais ainda não saber afinar o violão e muito menos ter um afinador. ainda.

seu violão tem nome?

até mais ler.

B. disse...

O Onabru (http://onabru-urbano.blogspot.com), se estiver mesmo interessada, me passa teu msn.

Bisous.