quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Como nós, Formigas

A vida não está fácil, era o que dizia. Os dias passavam e com eles toda a sorte do mundo. O que ficava? Que legado poderia deixar sua existência para que fosse então compreendido ? Era preciso fazer alguma coisa, pensava com seus botões. Viver não podia mais ser apenas existir. Existir deveria ser muito mais do que apenas viver. Estava cansado de toda a gente e de tudo. Não se importava com os grandes feitos, os pequenos eram tão bonitos e esquecidos pela sua medíocre insignificância, não entendia.

Um dia, não se sabe bem o porquê, começou a estudar formigas. Pretas, Saúvas, Aladas, Carpinteiras, Argentinas, Caiapós, Feiticeiras, Cortadoras, Assassinas. Formigas de todos os tipos. Organizadas como só elas poderiam ser. Admirava-lhe toda essa disciplina. O formigueiro era um condomínio democrático e disciplinado como um quartel, aos fundos do seu quintal. Diariamente controlava experimentos naquela sociedade pequena, contratava cantorias de cigarras, inaugurou um sistema de distribuição de açúcar e devastava famílias inteiras com anti-pragas e lagartas.

A vida não está fácil, repetia. Adoeceu e esqueceu a caixa de vidro que encobria o formigueiro experimental. Passou dias tossindo sobre a cama, esqueceu-se da distribuição de folhas e açúcares, faltava luz, aprisionou toda uma cidade como um Deus Todo Poderoso que lança Tsunamis inteiros por aí. Quando duas formigas se encontravam, tocavam as antenas e as feromonas forneciam informação sobre o estado de alimentação de cada uma, que regurgitava a comida para a outra, quando precisasse.

A vida nem sempre fica tão díficil. Após a tempestade viria a bonança e fez-se luz entre as trevas. As coisas melhoram um dia. A distribuição de alimentos voltou a todo vapor,formigas de todos os tipos se misturavam no mesmo formigueiro, cantorias, experiências, formigas filhotes marchavam organizadas aprendendo a rotina daquela estranha civilização em mutações. "No tempo do meu avô havia paz nos formigueiros" dizia uma formiguinha aflita para a outra. "A Rainha dizia que bastava uma picada bem leve para afastar qualquer perigo à nossa civilização" disse uma menos jovem formiga-carpinteira para uma formiga conhecida.

A notícia correu. Picada! A vida de antes poderia não ser fácil em busca de alimento e nem existiam shows e visitas de outras espécies naquele lugar, mas havia menos preocupação, é verdade. Picada! A vida precisava voltar a ser o que era antes. Picada! Formigas nasceram para trabalhar e não para ter tudo de mão beijada. Picada! Estava declarada a guerra. Picada!

A vida não está fácil, dizia. Viver não podia mais ser apenas existir. Existir deveria ser muito mais do que apenas viver. Estava cansado de toda a gente e de todas as coisas. Não se importava com os grandes feitos, os pequenos eram tão bonitos e esquecidos pela sua medíocre insignificância, não entendia. Aquele dia era especial. Dia de banquete, parecia eleição. Fungos, insetos, Corn Flakes, óleos. Felicidade é fazer feliz àqueles que não esperam por ela. Preparou a cerimônia, a festa ia começar. Mas uma dor filha da puta enrrugou sua face alegre. Matara uma filha? Não, não havia pisado em ninguém. Outra dor mais aguda, agora no outro pé.

Precisou retorcer o corpo. Mais outra dor. E outra. E mais uma. Largou o banquete de uma altura que choveu fartura na cidade. Tombou. Seu corpo estava vermelho e protuberâncias surgiam por todo o lado. Pretas, Saúvas, Aladas, Carpinteiras, Argentinas, Caiapós, Feiticeiras, Cortadoras, Assassinas. Formigas de todos os tipos. Organizadas como só elas poderiam ser. Até mesmo para matar. Até mesmo para morrer.

E naquele democrático condomínio houve fartura por muitos e muitos anos. A vida não era mesmo fácil não, era preciso entender.

7 comentários:

Na conta! disse...

Putz!
Quanta criatividade nisso moça!

Descobri graças a você que o brasil precisa de formigas, ou melhor, se transformar em um formigueiro.

;*

Cansei de ser abduzida disse...

Aeeeeeeeeeeee que bom que voltou... e sorte muita sorte no resultado!

Pamella disse...

Gostei muitooo...

Um abraço...

An@Lu disse...

gostei muito do blog, nunca tinha vindo aki. o texto é fenomenal, criativo e faz pensar.
só precisa é postar mais vezes :)

Thaís disse...

Super criativo,lindo!
Parabéns :)

Curso de Dinheiro na Internet! disse...

Opaaa..
blog mtuuu criativoo!

nunk tinha visto um desse tipo xD...

bjoo

Edson Marques disse...

Caroline,

belíssimo, o teu texto!


Vou, qualquer dia, te contar sobre a formiguinha que salvei de uma inundação...



Abraços, flores, estrelas..