domingo, 25 de maio de 2008

Esquadrão Prata

Durante muito tempo fiquei pensando o que diria quando chegasse o grande dia. Na verdade, pode até ser que eu não acreditasse realmente que ele fosse chegar. Mas costumam dizer as más línguas, que quando a gente deseja muito uma coisa, ela acaba acontecendo (e por isso devemos ter muito cuidado com aquilo o que se deseja!). E não foi diferente comigo. Aconteceu, sim.Está acontecendo. E eu simplesmente não pensei em nada para dizer, tampouco um texto bonito como deveria ser.

Então pensei que na verdade este texto não tem que ser bonito, não. Na verdade ele não tem que ser nada. Apenas eu. E é por isso que este blog ficará pelo menos os próximos quarenta dias em Hiatus, descansando de tantos pensamentos confusos, pois estarei ingressando na Escola de Especialistas de Aeronáutica.

É preciso dizer que eu não somente desejei, não. Corri muito atrás também. E às vezes, outras pessoas correram atrás por mim. Então, decidi que este post seria também para elas, para todas as pessoas que fizeram parte – direta e indiretamente – desta conquista.

Algumas delas me deram força, outras me deram a coragem, outras me deram o material de estudo, o incentivo, a preparação física, outras me deram um pouco de tudo o que já foi citado e Ele, que me deu a Fé. Prefiro não dizer o nome de todo mundo, pois não quero correr o risco de esquecer alguém. Mas tenho certeza que todas essas pessoas sabem que lhes falo, pois chegaram até aqui de alguma forma!

Durante muito tempo fiquei pensando o que diria quando chegasse o grande dia. E ele chegou. Sei que não vai ser fácil, que a minha vida vai mudar radicalmente, que se acabaram os dias de soneca na Sessão da Tarde, de joguinhos na Internet, de comida da vovó, de torcida nos jogos do Botafogo, de noites mal dormidas e manhãs bem dormidas. Tudo será trocado por toques de corneta e marchas sem fim. Ordem Unida, acampamentos, canções, camuflagem, treinamentos, a balalaica...

É... fácil não será, mas ninguém disse que seria. O importante é que vai valer à pena. E eu vou fazer valer, isso eu sei.


Até breve! Selva! Brasil!


”Quando passa uma asa altaneira
Sobre o céu, sobre a Terra e o mar
Devorando o espaço ligeira
Nós sentimos orgulho sem par...!”

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Empty City

Acordou estranha naquele dia. Fazia muito frio. Olhou pela janela do seu apartamento, o dia estava cinza, o ar gelado. Não havia ninguém nas ruas. Vazio absoluto. Olá-aaaaaa, gritou para que pudesse ser ouvida. Nenhum barulho do outro lado. Gritou novamente. E, outra vez, obteve o silêncio como resposta.Vestiu apressadamente um grosso casaco vermelho e nem se lembrou de comer alguma coisa.

O despertador havia parado às três horas da manhã. Não havia luz na casa, não sabia que horas eram, mas pressentia que deveria estar atrasada, muito atrasada. Desceu as escadas num só fôlego e chegou ofegante lá embaixo, depois de encarar sete lances. Após recuperar a respiração, colocou-se a caminho do centro da cidade, a pé mesmo, pois não havia ônibus, nem táxis, nem mesmo alguém que passasse numa simples bicicleta. Na verdade não havia nem uma única alma viva.

Enquanto caminhava, se afogava em pensamentos. "Todos devem ainda estar dormindo, houve um black-out geral, nenhum despertador tocou, ninguém amanheceu, por que chegarei ao trabalho se meu chefe ainda deve estar em casa no mais profundo sono? Aliás, por que é que eu estou tão preocupada com o meu trabalho se o mais preocupante é esse dia ter amanhecido tão esquisito? E se o mundo tiver acabado? Terão todos morrido? Serei a única sobrevivente?"

No meio do caminho, parou. O frio estava insuportável. Apertou os braços contra o peito e resolveu voltar. Um vento forte desgrenhava seus cabelos e sacudia com ferocidade as árvores da rua, fazendo à sua frente surgir um redemoinho de folhas amareladas e secas. Com muita dificuldade, conseguiu retornar os três quarteirões que já havia andado. Entrou no seu prédio, tomou coragem para enfrentar os sete lances, subiu. Largou a bolsa no sofá e estirou-se na cama, olhou para o teto, olhou a sua volta. Estava perdida. Estava só naquele mundo gigante. Não havia mais ninguém. Nem como se desesperar.


Não se sabe quanto tempo ficou ali, pensando, até que adormeceu. Quando voltou a acordar, olhou para o relógio, completamente atrasada para o trabalho. Lembrou-se de que o mundo havia virado um grande vazio absoluto, que agora a pouco andava perdida no meio do nada. Voltou a tentar pegar no sono. Dormir, talvez, seria a salvação. Quando estava preste a adormecer pela segunda vez, uma buzina feroz pôde ser ouvida lá da rua. Num só ímpeto levantou-se e abriu as cortinas. Um sol quente brilhava anunciando o dia. Lá embaixo as pessoas se movimentavam no furor de pleno... Meio-dia!


Meio-dia?!


Saiu apressadamente. Esqueceu-se do elevador. Desceu as escadas num só fôlego e chegou cansada lá embaixo, depois de encarar sete lances. Após recuperar a respiração, chamou o primeiro táxi que passou na sua frente. Entrou esbaforida. Destino: Centro da Cidade! Encostou a cabeça no banco. – Meu Deus, que sonho maluco, como vou chegar agora, essa hora no trabalho?

Concentração. De repente sentiu um súbito calor no seu corpo, estava suando. Percebeu que vestia um grosso casaco vermelho. E, preso nele, uma pequena folha amarela e seca desgrudou e caiu no banco no carro.


- Pois quem é que nunca se atrasou por coisas estranhas e involuntárias que acontecem pela madrugada? Quem é que inventou que todas as desculpas são esfarrapadas?





sexta-feira, 16 de maio de 2008

Será?


E assim foi julgado. Sem saber o porquê. Sem entender as razões. E será que elas, as tais razões, existiam? Na cabeça de quem julgava, sim. Havia mil explicações. Algumas delas simples, curtas, diretas. Outras complexas, tediosas, difíceis. E ali, parado, apenas ouvia. E continuava sem entender. Será que era isso mesmo o que diziam? Será que era impossível interpretar a profundeza daquele olhar? Será que não existe um dia após o outro dia? Será que...

... Ninguém percebia?

E assim foi condenado. Ignorava a defesa, não conhecia bem as palavras. Elas separavam-se muito bem nos pensamentos, mas ficavam presas na garganta, sendo obrigado a degustá-las uma a uma. E suportava pacientemente, enquanto um turbilhão de desaforos brotava na ponta da língua. E ali ficavam, sem sair. Novamente conhecia o sabor amargo de engolir suas próprias verdades. Será que isso mudaria um dia? Será que reconheceriam seu talento? Será que depois do inverno, não surgem flores na primavera? Será que...

... Haveria chances de provar quem era?

Entender. Era somente isso o que fazia. Sempre entender as razões pelas quais o julgavam. Para todo o mundo inteiro existiam tempos difíceis. Para ele não poderiam existir dificuldades.Tentava compreender que deveria ser benevolente e nadar contra a correnteza de imperfeições do mar que o afogava. É bem verdade que às vezes não conseguia, mas tentava. E isso já era muita coisa, pois nunca o tentavam entender e era justamente isso o que ele tanto buscava: um pouco de compreensão. Será que era possível? Será que não era muita utopia? Será que...



... Alguém o compreenderia como ele fazia?

domingo, 4 de maio de 2008

A Pedra mais Alta

Não, assim não podia ficar. Era preciso conter as rédeas. Era preciso saber onde terminava a tênue linha que separa a razão e a emoção. Era preciso saber o que ele fazia ali, naquela pedra mais alta. Era preciso saber tanta coisa...

Dentro de si, turbilhões de pensamentos jorravam através de lágrimas incontidas. Ele parecia tão pequeno de cima da pedra mais alta e ao mesmo tempo tão dono de uma imensidão quase infinita...

E pensava no final. Feliz ou não? O vento estava forte, seria tudo tão rápido e tão intenso como coisa de filme. Fácil, não ? E pensava também em quantas coisas deixava para trás, embora não soubesse muito bem que coisas eram essas, afinal eram coisas que o perturbavam de tal maneira que se encontrava ali, em cima da tênue linha que separava a razão e a emoção.

Então mais um passo. Para frente. O medo fica maior de cima da pedra mais alta. Agora faltava bem pouco, podia perceber que seu corpo inclinava. Ali de cima, via todas as vidas que se movimentavam lá embaixo. Via o sol, o mar agitado abaixo dos seus pés, tão cheio de perigos e ao mesmo tempo, espelho do céu. E a viu. Enxergou-a sorrindo lá de cima. Contemplou teu ar, teu movimento... um sonho.


Então mais um passo. Dessa vez para trás. Bem sabia da sua dificuldade na terra, mas que graça teria se fosse tudo tão perfeito? Tudo fica mesmo confuso ali de cima !

Outro passo. E mais outro. Afastou-se o quanto pôde da tênue linha. Estava seguro agora. Ia descer, ia embora, queria ela inteira e a sua metade de volta.


Parou. No rosto, o suor e o desespero. Parou. E então percebeu o quanto estava longe. Tão longe que sentiu falta da imensidão toda aos seus pés. Juntou todas as forças que podia com toda a vontade que tinha e correu para onde estava. Correu na direção da pequena linha. E saltou.

- Vou mergulhar, talvez bater a cabeça no fundo, mas vou nadar junto com a sereia bonita, todos os mares do mundo...!



(Inspirado na Trilha Sonora de O Teatro Mágico)