sexta-feira, 11 de setembro de 2009

O Amor não pode ser encomendado

A frase que dá título a este post foi a última fala do personagem do ator Marat Descartes, no monólogo Primeiro Amor*, baseado no conto homônimo de Samuel Beckett. Este foi o espetáculo que escolhi para assistir neste dia 11 de setembro, dia do meu aniversário e confesso: não poderia ter feito melhor opção. Ouvir falar de amor, de dor, o medo da vida, da morte e de tantos sentimentos confusos que atordoam a existência humana, pode fazer qualquer um refletir sobre o amadurecimento ou, quem sabe, a chegada vagarosa e discreta da velhice. Não que eu esteja ficando velha, muito ainda falta para isso, mas a única certeza que tenho é que a cada aniversário que chega mais próxima estou de me juntar àqueles que, hoje, julgo atrasados, lentos, cheios de esquisitices. Eu também ficarei esquisita, né? Atravessarei ruas devagar e subirei lentamente os degraus dos ônibus, quem sabe rezando internamente para nenhum motorista jovem e grosseiro dar partida antes que eu possa me sentar. Bem, isso é papo para adiante. Eu falava da peça. E, ao ouvir sobre mortes, pensei em quanta gente querida e agradável fica no passado da vida. Não somente porque morreram, nem tampouco porque irão morrer (única certeza de todos nós), mas sim porque um dia estiveram presentes e hoje mandam recados, postais (eu falei isso só para ser chique, na verdade, mandam e-mails e scraps) com dizeres de saudades. Saudade dói pra caramba... Eu não tinha certeza disso até virar militar e nômade. E me acostumar a deixar amigos pelos aeroportos e rodoviárias da vida. "Mas que importância tem o modo como as coisas se passam a partir do momento em que se passam. A história é sempre a mesma. Desde o princípio do verbo que tem sido assim. A ironia da vida. As adversidades do amor. A inadiável morte. Nunca houve outros assuntos. Nunca haverá outra história. Seja deste ou de outro homem. Os adereços mudam mas o assunto não. Sempre.

A vida. O amor. A morte. O medo. O riso. O desespero. A perversidade. A repetição.

Naquela altura eu não percebia as mulheres. Aliás agora também não. Nem os homens. Nem os animais. O que percebo melhor, e não é dizer muito, são as minhas dores." Samuel BECKETT, Primeiro Amor.

Hoje recebi votos de felicidades de pessoas que nem esperava e não recebi nada de outras que esperava muita coisa, portanto, desejo a mim mesma, antes de todo mundo, um feliz aniversário e uma longa vida, repleta de realizações e sucesso. Ah, e de muito teatro, é claro.



*O espetáculo “Primeiro Amor” é um romance de Samuel Beckett escrito em 1945. Levado à cena na íntegra, sem nenhuma adaptação, o ator Marat Descartes, vencedor do Prêmio Shell de melhor ator em 2006, é quem dá voz ao texto, encarnando seu narrador-protagonista. Com o humor cáustico beckettiano – é narrada a triste história de seu primeiro amor.


5 comentários:

A.C Once Caldas - SM disse...

olhei filme é muito bom, recomendo, e gostei do que vocês falou sobre o filme, soube expressar muito bem, parabens

A.C Once Caldas - SM disse...

olhei filme é muito bom, recomendo, e gostei do que vocês falou sobre o filme, soube expressar muito bem, parabens

Ana Lucia Nicolau disse...

ler essapostagem me fez pensar nas etapas da vida e na forma de encarmos todas as situações naturais que passamos...
essa peça, realmente, deve ser muito boa...
abs

FabioZen disse...

Encarar com naturalidade a passagem do tempo é realmente um desafio de todos.Parabens.

Alam disse...

O texto como um todo está com uma linguagem muito interessante, mas uma parte em especial me fez ficar refletindo, li e reli pelo menos umas três vezes, a que diz que as pessoas ficam no passado. Mas o engraçado foi que a primeira coisa que vi no seu blog (pq acho que nunca tinha passado aqui - e estou gostando bastante do que estou vendo, lendo e sentindo), enfim, a primeira coisa que vi foi o título na barra lateral "pretérito perfeito" (deu até vontade de copiar rsrs), então, o que me fez refletir, é que nem só as pessoas ficam neste passado, mas muitas coisas, inclusive agente mesmo, com alguns valores e conceitos, perdem-se ao longo do tempo. Mas sempre é tempo de resgatar as coisas que não estão presentes no momento!

Valeu pela vistia no http://revolucao29.blogspot.com/ Volte sempre!