sábado, 26 de janeiro de 2008

Sala de Espera

Silêncio. Nada mais que o absoluto silêncio de uma sala fechada. Espera. A demorada espera. Minutos que pareciam horas. Lá dentro, depois daquela porta, o julgamento. Do lado de cá, ainda a espera. O lado de lá guarda a chave da redenção ou a chave do cadafalso. Na sala fechada, apenas o sombrio silêncio de um olhar que ainda aguarda com um fiapo de esperança. Cabeça cheia de mil pensamentos, anos de vida passando como um filme cujo final feliz era a libertação.

De repente, um ranger. A porta do lado de lá se abriu. Pernas bambas, suor escorrendo, a sentença cruel ou a salvação. O fim ou o começo de todos os devaneios e promessas de que viveria cada dia como se neles fosse dar o último suspiro. Chegou mesmo a acreditar que seria possível viver cada segundo de sua vida tão feliz que, ímpetos de alvoroço lhe subiram pelo corpo e desejou poder voltar ao tempo para fazer tudo diferente.

Enquanto os dias anteriores ao julgamento passavam, as poucas horas que lhe restavam de vida foram consumidas em bebidas, carnes, cigarros. O que importava preservar a boa saúde agora? Que se danem as propagandas! O prazer mórbido era tragado como lenitivo e quem sabe, uma conformação com o fim próximo. A esperança –confessa - não era a mais fiel das companheiras nessas horas.

A resposta estava ali, parada na sua frente. Sua sentença seria pronunciada pela voz de alguém que nunca viu, mas alguém transparente demais para deixar escapar um certo prazer em decretar decapitações. Será que a cabeça, mesmo depois de cortada é capaz de saber o que lhe aconteceu nos três segundos posteriores? O que lhe passaria pela mente quando ouvisse o arranhar final da guilhotina? Sádicos pensamentos domaram seu espírito. Era preciso coragem para receber a sentença ou seria morto pelos próprios pesares.


Aqueles segundos pareceram intermináveis. Era se como cada palavra que antecedia a sentença final fossem as palavras mais compridas do dicionário. Será que não se poderia abreviá-las? Para que fantasiar tanto um ato nu? Ouvia cada uma com a máxima atenção, já percebendo de antemão o que lhe aguardava brevemente. Pensou em tudo o que fizera até ali para que merecesse ser julgado. Novamente imaginou-se com uma chance, o que faria dela se pudesse a vida lhe conceder anos mais de aventura.

A palavra. Crua e fria. A espinha gelada, o suor, o medo, o tremular de mãos e pernas e enfim... A salvação. Não, não pôde acreditar. Precisava ouvir mais vezes daqueles lábios insatisfeitos por conceder uma absolvição. Era a vida outra vez. Ela chegava mansamente aquecendo seu corpo, tudo poderia ser diferente agora, o mundo era seu e estava livre do terrível e desconhecido lado de lá que espera todos nós.

Amanheceu o dia e precisava respirar ar puro. Cheiro de liberdade. Mas queria um cigarro. Ganhou uma grana em algum jogo, pensou em viajar e explorar a natureza, mas quis jogar mais, a bebida era uma fiel escudeira também. O dinheiro acabou, precisava de mais cigarros, mais comida, mais jogos, mais bebidas. A fé se foi, a vontade de viver cada dia como o último também. Desespero. Matou.

Silêncio. Nada mais que o absoluto silêncio de uma sala fechada. Espera. A demorada espera. Minutos que pareciam horas. Lá dentro, depois daquela porta, o julgamento. Do lado de cá, ainda a espera. O lado de lá guarda a chave da redenção ou a chave do cadafalso. Na sala fechada, apenas o sombrio silêncio de um olhar que ainda aguarda com um fiapo de esperança. Cabeça cheia de mil pensamentos, anos de vida passando como um filme cujo final feliz era a libertação.

- Ah, como seria bom viver...

8 comentários:

Gustavo disse...

Parabens,
gostei do texto, e do jeito que você o escreve.
parabens (:

Plynio Lp disse...

caraca, tipo um texto sombrio, escuro, axei muito massa, meio nonsense mas aind assim massa, gosto dessa coisa sem uma explicaçao clara, q deixa o leitor livre pra varias interpretaçoes...


valew

Caroline disse...

Há várias interpretações para ele... a minha (motivo pelo qual me inspirei) talvez seja só minha! rs

Tom disse...

Oi Caroline, muito interessante o seu blog e gostei muito do seu estilo ao escrever.

Beijos!

Igor disse...

Caraca...muito bom o texto,cativante em seu desenrolar.

Bárbara (B.) disse...

Voltou com tuuuuuuuuuuuuuudo, hein, bonitona? Que bom! Adorei!
Vê se não some mais.

Beijo meu.

Teresa disse...

Não tenho o que dizer a não ser: que post foi esse???

adoreiii, genteee

=*

Nilza disse...

Menina!!!

Talvez eu, em minha mente um tanto insana - conclui isso essa semana - seja capaz de entender sim. Quem sabe até saber?

Por essa razão, vou arriscar e dizer: nada é tão definitivo, tudo é questão de momento, filosofias á parte, a vida deve e merecemos que seja vivida da melhor forma, ainda que ela esteja cansada de ser massacrada com nossos sofrimentos e espera.

Abra a porta, saia e amordace a boca que diz palavras cruéis demais.

Muito bem escrito !!
Beijos e boa semana pra vc.